Varanda mil e um: capítulo único

Olá! ♥
Aqui está a história de Marina e Coral, disponível na íntegra nesta página.
Espero que goste da leitura. Não esqueça de deixar, nos comentários, a sua opinião sobre ela. Vou amar saber o que você achou!
Varanda mil e um
Espero que o ônibus esteja vazio.
É frustrante ter vinte e poucos anos e, em uma sexta-feira à noite, pensar somente nisso, mas estou cansada demais para desejar qualquer outra coisa.
No começo da minha vida universitária, eu tinha mais energia que essa Marina de agora. Mas aí eu comecei a estagiar e, apesar de ter sido o primeiro vislumbre de independência financeira da minha vida, também foi o primeiro passo para eu me tornar quase cronicamente cansada.
Lembro que, nos instantes finais do ensino médio, prestes a enfrentar uma fase desconhecida da vida, eu fantasiava com uma Marina do futuro que aos vinte e três anos já teria colocado cada coisa em seu lugar. Eu tinha certeza de que, a essa altura do campeonato, já seria independente – em todos os sentidos possíveis –, teria uma carreira muito bem consolidada e, quiçá, até teria formado uma família. Aquela Marina estaria decepcionada ao enfrentar a realidade cruel dos dias de hoje.
Eu estou perdida e frustrada. Nenhum dos meus grandes planos foi realizado, e até fazer planos menores é difícil.
Vivendo nesse ritmo há um ano e meio, com pelo menos mais um semestre assim pela frente, já nem sei há quanto tempo não vou a um barzinho, menos ainda quando terei disposição para ir a partir de agora.
Sentar em uma mesa de bar, esvaziar garrafas de cerveja uma atrás da outra e conversar com amigos enquanto comia petiscos de qualidade duvidosa era o meu programa favorito. Ainda é… só não tenho mais o ânimo necessário.
Confesso que nunca tive grandes reservas de energia, então o estágio enfadonho em uma fábrica de biscoitos, as matérias finais – e atrasadas – do curso de Administração e o Trabalho de Conclusão de Curso são muito mais que suficientes para me drenar cada resquício de disposição.
A mochila que carrego todos os dias faz minhas costas doerem quase como se esse fosse o estado natural delas, e eu puxo as alças em uma tentativa frustrada de aliviar o peso.
Presa em minhas ponderações, parada no ponto de ônibus do terminal universitário lotado de alunos mais dispostos que eu, acabo me tornando meio alheia ao que acontece ao redor – menos ao fim da rua, de onde espero ver o ônibus que vai me levar para o terminal DIA, onde pegarei, enfim, a última condução para casa. Ainda assim, consigo ouvir quando Ana Carolina diz:
— Você jura que Coral não tá afim de você, né? Sério, Luciene, chama logo aquela mulher pra sair!
Pela primeira vez desde que parei no ponto, eu deixo de olhar para o fim da rua e olho para as minhas colegas de curso.
Ana Carolina e Luciene não são tão próximas de mim, mas nós nos damos bem o suficiente para mantermos uma relação intacta mesmo após diversos trabalhos em grupo juntas. O problema é quando essas coisas acontecem. Quando elas falam de Coral.
Coral Ferraz era uma veterana nossa e amiga minha. Também uma das minhas vizinhas lá no prédio onde moro, no Luzia. E, sei que não menos importante, a pessoa por quem sou apaixonada há mais tempo do que gosto de admitir para mim mesma – e que não admito para ninguém mais.
Mas Luciene também tem sentimentos por Coral. Talvez nada tão intenso quanto o que eu sinto por ela. Acho que é só atração, um gostar de leve… não sei. Sempre fujo dessas conversas, porque sei que Luciene tem mais chances que eu. Bem, pelo menos mais coragem de agir ela tem. Então, não quero saber dessas coisas, com medo de não conseguir esconder minha reação quando chegar o dia em que Luciene vai anunciar que teve um encontro maravilhoso com Coral.
Eu viro para a frente mais uma vez, tentando fugir do assunto, mas Ana Carolina foi mais rápida que eu e percebeu minha olhadela.
— Cora fala sobre Luciene, Marina? — ela pergunta.
Cora. Coral não gosta desse apelido, mas fico quieta sobre isso. Na verdade, fico quieta sobre qualquer coisa.
Coral não fala sobre Luciene. E, não sei, fico constrangida de precisar dizer isso em voz alta.
Então, em meio ao meu silêncio longo e esquisito, ouço o som familiar de um motor que pede urgentemente por manutenção. Olho para o fim da rua e vejo meu ônibus se aproximando rápido.
Sorrio para as minhas colegas e gesticulo com a cabeça, apontando para a condução, que faz o retorno para entrar no terminal, onde os passageiros impacientes começam a se aglomerar na esperança de conquistar um lugar para sentar.
— Depois a gente conversa — digo.
Elas não se incomodam.
— Você vai amanhã? — Luciene pergunta. — É meu aniversário… faz esse esforço.
Apesar de todo o cansaço, eu balanço a cabeça em uma resposta positiva, porque levo aniversários a sério.
— Juro que vou tentar ir — garanto.
Luciene e Ana Carolina estão sorrindo genuinamente.
— Cora já tem o endereço! — Luciene diz enquanto me misturo à fila bagunçada para embarcar no ônibus. — Vou esperar vocês!
Eu espero apenas virar as costas para elas para perder a força destinada ao sorriso.
Coral vai.
Bem, talvez amanhã seja o dia em que precisarei encarar as duas juntas.
Com muito esforço, depois de levar uma cotovelada potencialmente proposital, eu consigo embarcar no disputadíssimo zero sessenta e, sem lugar para sentar, paro ao lado de um banco ocupado por um aluno que parece estar enfrentando um dia, ou uma vida, mais cansativo que o meu.
O balanço enferrujado do ônibus é quase reconfortante, e eu me encaro no reflexo tremido na janela enquanto sigo rumo a minha casa.
Suspiro, insatisfeita com o que vejo, apesar da pouca nitidez da minha imagem refletida. Não consigo ver as olheiras criando manchas escuras sobre minha pele, mas sei que estão lá. Não consigo ver detalhes dos meus cabelos, mas sei que os cachos escuros não estão definidos, e sim armados.
Durante os quarenta minutos de viagem, meus pensamentos se alternam entre isso e Coral.
Penso em tudo que poderia fazer para me deixar mais satisfeita com a minha aparência. Poderia usar lentes no lugar dos óculos? Não me vejo tomando essa decisão. Se bem que eu poderia usar lentes de contato, talvez verdes, só para sair da monotonia do castanho escuro das minhas íris. Ou trocar os produtos que uso no cabelo, para definir os cachos rebeldes.
Então, penso em Coral e Luciene. Elas formariam um casal bonito.
Quando desço no ponto mais perto de casa, eu expulso o ar com cansaço.
Normalmente, o tempo que passo no ônibus é usado para me martirizar sobre outras coisas na minha vida. Como a sensação de fracasso por já ter vinte e cinco anos e ainda estar na universidade, enquanto todos que estudaram comigo já parecem estar formados e bem empregados. Eu entendo o conceito de cada um ter o próprio tempo, mas respeitar o meu não é uma coisa na qual sou muito boa.
Caminhando pelas ruas do Luzia, eu tento me desapegar de quaisquer pensamentos depreciativos.
Entro em uma loja de conveniência próxima ao meu prédio e compro alguns chocolates do meu favorito, que são os favoritos de Coral também. E essa é meio que a minha tradição de sexta-feira: parar nessa lojinha abarrotada e comprar algo para me recompensar por mais uma semana cansativa.
As ruas afastadas da avenida principal não têm muito movimento a essa hora, e não é difícil chegar ao prédio amarelo de dez andares onde moro.
Estou entrando no elevador quando sinto o celular vibrar na calça. Tiro o telefone do bolso e observo a mensagem que salta na tela.
Coral
Nina, já tá chegando no prédio? Você ainda vai passar aqui em casa, né? (19:43)
A porta tá destrancada. Pode entrar quando chegar :) (19:43)
Não respondo à mensagem. No lugar, paro diante da primeira porta que surge quando o elevador chega ao quarto andar e entro no apartamento. Minha mãe e meu irmão mais novo estão na sala, diante da TV, e eu os cumprimento com um boa noite cansado.
— Como foi seu dia? — mainha pergunta enquanto sigo pelo corredor até o banheiro.
— Não foi dos melhores.
— Ô, Ma… — ela diz, a condescendência de seu tom me alcançando aqui no sanitário. — Vem jantar. Eu cozinhei macaxeira. Ainda deve estar quentinha.
Eu volto à sala, com a toalha no ombro e o cabelo já preso em um coque, e deixo um beijo no topo da cabeça da minha mãe. Depois, dou um peteleco no meu irmão.
— Vou tomar um banho e subir lá no apartamento de Coral. Depois eu como.
— Pelo menos você se distrai. Manda um beijo pra ela.
— E diga que tem jogo do Sergipe no próximo final de semana — meu irmão pede, sem tirar os olhos do celular. — Se ela quiser ir comigo no Batistão…
— Vou pensar no seu caso — anuncio, em meio a um bocejo, antes de voltar ao banheiro. Suspiro de alívio quando tiro o uniforme do estágio e, depois, quando a água morna cai sobre o meu corpo.
Apesar da ansiedade para ver Coral, a ideia de cancelar nossos planos atravessa minha mente uma quantidade vergonhosa de vezes entre o banho, a higiene bucal, o skin care e a escolha de uma roupa perfeitamente confortável, mas bonitinha.
Enfim, munida de pouca disposição, alguns chocolates e muito sono, eu saio do apartamento da minha família e entro novamente no elevador. Desta vez, aperto o botão do décimo andar.
— Cheguei! — anúncio ao seguir as instruções de Coral e abrir a porta do apartamento mil e um sem tocar a campainha.
O apartamento está escuro e não escuto nenhuma resposta. Apenas a luz amarelada da varanda está acesa, mas as portas de vidro fumê estão fechadas.
Deixo os chocolates no balcão da cozinha e caminho até a varanda, massageando o nó em meu ombro enquanto ignoro a pilha de roupas no sofá. Coral não é exatamente um exemplo de organização.
Antes de abrir a porta de correr, eu vejo Coral sentada em uma de duas cadeiras de madeira, com as costas viradas para mim.
Eu paro aqui, de pé, admirando o cabelo chanel descolorido, os ombros largos marcados pelas alças de sua regata, os dedos finos envolvendo o diâmetro de uma latinha de cerveja.
Meu coração acelera quando penso em deslizar a porta e anunciar minha chegada mais uma vez; acelera de novo quando o faço.
— Cheguei — repito, sobrepondo o som baixo da caixinha de som que reproduz um funk muito explícito.
Coral não faz nada além de olhar na minha direção por cima do ombro e sorrir antes de tomar um gole da cerveja.
— Que vida boa… — digo. Ela ri, mas a risada de Coral é quase sempre sem som. Por outro lado, o chacoalhar dos seus ombros sempre entrega o riso.
— Sexta-feira, Nina… — anuncia, olhando para a frente antes de apoiar a lata de cerveja na mesa que não costuma estar na varanda dela. Agora, os pézinhos de manjericão, boldo e cebolinha têm a companhia de uma mesa desmontável de madeira, que veio da sala de jantar pouco luxuosa. A mesa está cheia de petiscos. Azeitona, amendoim cozido e queijo coalho cortado em cubinhos, temperado com azeite e orégano.
Das duas cadeiras, uma está vazia, e vejo um isopor térmico debaixo da cadeira de Coral.
— Isso tudo é pra mim? — pergunto, sem sair do lugar.
Coral olha para mim de novo. As sobrancelhas escuras se desenham em torno dos olhos pretos e preguiçosos quando ela sorri mais uma vez e responde:
— Sim.
Ela estende a mão para mim, e eu a aceito rápido.
Nossos dedos se entrelaçam e ela me puxa com cuidado; também com cuidado, eu passo para a varanda. Quando fico de pé na frente dela, Coral levanta e vai me envolvendo devagar em um abraço.
Sinto o beijo que ela deixa no meu ombro e torço para que não sinta o meu arrepio em resposta, mas não me afasto. Eu aproveito esse momento, seu abraço, o toque do seu corpo no meu e o cheiro fresco de um banho recém tomado que exala de sua pele clara.
Meu corpo entra em pane. Acontece sempre que ela me abraça desse jeito. E ela me abraça cada vez mais.
Eu tento não ver nenhum significado profundo por trás disso; nada além de uma demonstração de afeto entre amigas, mas é difícil calar a esperança que nasce no meu peito. Eu sou um clichê, apaixonada platonicamente por minha melhor amiga, e odeio isso.
Com esforço, consigo afastar nossos corpos, dando fim ao abraço que na verdade gostaria de prolongar.
— Como foi seu dia hoje? — ela pergunta quando o único ponto de contato entre nós se concentra nos dedos ainda entrelaçados.
Eu arqueio as sobrancelhas e suspiro antes de rir, derrotada.
— O mesmo de sempre… — respondo sinceramente. — Tô cansada feito o cabrunco.
Coral ri também; o tipo de risada condescendente, quase de compaixão.
Então, como se eu ainda não estivesse me recuperando do abraço, ela beija meu ombro mais uma vez antes de voltar a se sentar.
Nossas mãos se separam nesse momento, e eu preciso me controlar para não soltar um gemido de insatisfação.
— Tem energia para uma noite de barzinho? — ela pergunta, deitando a cabeça na direção da cadeira do outro lado da mesinha de madeira. — Só que aqui em casa.
Eu me preparo para responder, mas um novo bocejo irrompe no lugar de palavras.
— Meu deus… eu estou tão cansada… — me lamento, seguindo à cadeira livre, na qual caio sentada. — Desculpa. Você sabe como eu fico na sexta-feira…
— Sei — ela se abaixa para pegar uma latinha de cerveja no isopor. Depois de abri-la, entrega a lata para mim.
Eu aceito a cerveja e nós brindamos enquanto sorrio. Depois do primeiro gole, eu olho para a frente. A varanda dela não tem uma vista privilegiada de Aracaju. Mesmo assim, é um ambiente acolhedor, e me arrisco a dizer que a motivação por trás disso é mais a companhia do que o lugar.
— Obrigada — digo sinceramente.
Nós ficamos caladas, admirando a vista da cidade. A caixa de som ainda reproduz uma música explícita, e no terceiro verso seguido de insinuação sexual, caio na risada.
— Posso escolher a próxima música? — pergunto, com o riso se prolongando. Coral ri junto comigo e passa o celular por cima da mesa.
— Pode fazer tudo que quiser, Nina.
Eu tento não esboçar nenhuma reação exagerada à sua assertiva e deixo minha cerveja de lado para pegar o telefone desbloqueado.
Enquanto passeio pelo aplicativo do Spotify em busca de alguma música que combine com esse momento, um banner de notificação desce no topo da tela. Meu sorriso perde força na mesma hora.
— Luci mandou mensagem — anuncio, estendendo o celular de volta.
Coral sequer olha para mim; apenas balança a cabeça em um sim, e diz, depois de um gole na cerveja gelada:
— Já vejo. Escolheu a música?
Puxo a mão de volta e pressiono o dedo sobre a primeira canção. Ofereço o celular mais uma vez logo em seguida, e Coral sorri quando o aceita.
— The Baggios? — ela questiona. — Boa.
Apenas encolho os ombros e rio em um gesto frágil, encobrindo minha falta de jeito com um gole da cerveja.
Em seguida, tento não olhar diretamente, mas percebo que Coral se demora um pouco mais no telefone. Parece responder uma mensagem; a mensagem de Luciene.
— Ela quer saber se vamos amanhã — Coral anuncia, apoiando o celular na mesa com a tela virada para baixo. Sinto seu olhar em mim, então me obrigo a olhá-la de volta. — Você vai?
— Vou tentar. Prometi ir à praia com mainha e com Diego de manhã. Se tiver energia sobrando à noite, vou, sim.
— Posso ir com vocês?
Dou uma risada, mas é um riso carinhoso.
— Tem certeza de que quer passar o sábado com minha mãe e com meu irmão caçula?
— Eu adoro eles dois, Nina. E adoro ficar com você. Então, sim.
Eu umedeço os lábios.
Coral é a minha melhor amiga. É claro que ela gosta de passar tempo comigo. Mesmo assim, a minha paixão insiste em dar significados a mais às suas demonstrações de afeto, e é cansativo ter que me convencer o tempo todo de que não posso fazer isso.
— Tudo bem? — ela questiona quando fico em silêncio por tempo demais.
— Sim — minto e sorrio para tentar afastar qualquer desconfiança. — É claro que você pode ir. Ah, esqueci de avisar: comprei chocolate. Deixei os seus no balcão da cozinha. E Diego quer que você vá com ele no Batistão, na próxima semana. Jogo do Sergipe.
— Obrigada — ela diz. — E é claro que vou ver o jogo do Gipão.
Enquanto Coral toma mais um gole da cerveja, pergunto:
— E o aniversário de Luciene?
— O que tem?
— Vai de certeza?
Ela desliza o dedo pela lata, capturando uma gota de água condensada quando faz que sim.
— Acho que finalmente vai acontecer, né? — questiono, lutando para não evidenciar incômodo. Até tento sorrir.
A expressão de Coral, por outro lado, é de confusão.
— Acontecer o que, Nina?
Eu sempre evito esse assunto. Nas poucas vezes em que me vejo envolvida nele, é porque Luciene fala comigo. Nunca o abordo com Coral, mas a iminência das possibilidades de amanhã me faz quebrar a minha regra nunca verbalizada, porque preciso me habituar à ideia de vê-las juntas antes de acontecer de fato.
— Vocês duas. Você e Luciene.
As sobrancelhas escuras dela se contraem, intensificando sua estranheza ao que digo.
— Todo mundo sabe que ela é a fim de você… e todo mundo acha que você é a fim dela.
— Real? — questiona, suavizando a própria expressão enquanto ajeita uma mecha de cabelo descolorido atrás da orelha, com a luz amarelada iluminando sua pele clara. — Já percebi as brincadeiras de algumas pessoas, mas nunca levei a sério, não.
Eu tomo um gole de cerveja só para ter mais tempo para pensar se quero mesmo perguntar o que está na ponta da língua. Decido pelo sim.
— E agora que você sabe que é sério?
Coral olha para a frente, deslizando a mão pelo rosto em um gesto suave. A demora de sua resposta me deixa mais nervosa.
— Eu adoro Luciene, Nina.
Espero o desfecho, torcendo por uma conjunção adversativa na sequência.
— Mas não acho que seja o momento. Eu gosto muito de outra pessoa.
Ela gosta de alguém.
Meu coração afunda no peito.
Queria poder falar sobre isso com ela e me encher de empolgação. Queria mesmo, mas tenho medo de não conter a tristeza.
— Quem é? — pergunto. A voz sai em um fio fragilizado do qual me arrependo logo em seguida.
Coral não responde.
— Não pode dizer? — insisto.
Talvez seja melhor mesmo não descobrir.
— Não posso — responde.
Mantenho meu olhar focado em sua imagem; seu rosto sereno enquanto bebe mais um pouco da cerveja. Quando ela volta a olhar para mim, tem um sorriso nos lábios.
— Desculpa, Nina — pede. — Por falar assim… eu só — Faz uma pausa, puxando o ar como se essa fosse uma tarefa subitamente trabalhosa. Depois, expulsa tudo pela boca; o ar e a sua justificativa: — Não quero falar sobre isso agora. — Completa, com mais bom humor: — Talvez se eu beber mais um pouco, né?
Eu balanço a cabeça para os lados, negando. O tom dela, em nenhum momento, foi grosseiro. Sua sinceridade inicial veio com suavidade, mas sei que a minha expressão a fez pensar no contrário. Não foi o tom que me deixou tensa; foi a mensagem que veio antes. Coral gosta de alguém.
Sei que vou pensar nisso por toda a madrugada que está por vir, me martirizando até que o sono me embale em uma noite de descanso merecido.
Sem saber o que mais dizer, e ciente de que não quero insistir no assunto, eu deixo o silêncio nos envolver por longos minutos enquanto ouvimos música, bebemos cerveja e comemos os petiscos sobre a mesa.
Coral é uma boa amiga. Vê-la como algo a mais não me faz perder essa certeza. Ela é mesmo uma das amizades mais sinceras que já tive, e isso quem me confirma são seus pequenos atos.
Nesta noite, ela preparou um barzinho em casa para eu poder aproveitar uma das minhas coisas favoritas da melhor forma que posso com a pouca energia que tenho no fim do dia. Em outras noites, seu carinho por mim se expressou de outras formas: com um filme na TV acompanhado de pipoca e refrigerante; com um salão de beleza improvisado na sala de estar para fazer as minhas unhas, que eu tinha voltado a roer.
Coral é, definitivamente, uma boa amiga. E eu quero continuar sendo uma boa amiga para ela também. Não vou deixar que meus sentimentos indesejados atrapalhem a relação que temos.
Então, enquanto termino a minha cerveja, eu prometo para mim mesma que, quando ela quiser falar sobre a pessoa de quem gosta, eu vou ouvir. Eu vou ouvir e vou me empolgar com ela, como ela sempre se empolga com as pequenas coisas que acontecem na minha vida pacata.
Com essa certeza, eu a acompanho em mais uma cerveja. Continuamos ouvindo música em silêncio, alternando entre canções velhas e canções explícitas que, vez ou outra, nos fazem rir.
— Eu quero me formar — digo depois de engolir mais um bocejo que relembra a minha exaustão. — E não estou dizendo isso porque estou ansiosa pelo que vem depois do diploma. Eu só quero me livrar da universidade. Não aguento mais.
Coral ri, mas eu sei que ela entende a seriedade da minha confissão.
— Falta pouco — relembra. — E você tá indo muito bem, Nina.
Eu expulso o ar e balanço a cabeça em uma concordância, embora me pergunte se estou mesmo indo bem.
— Eu acho que preciso dormir… — confesso, pressentindo mais um bocejo. — Desculpa…
— A ideia era você aproveitar só um pouquinho antes de dormir. Não tem pelo que se desculpar. — Eu sorrio, me sentindo meio culpada mesmo assim. — Quer dormir aqui? Pode deitar lá na minha cama.
Eu penso em aceitar a oferta, ainda que seja profundamente apegada à minha cama. Ainda assim, o apartamento de Coral tem algo que me conforta, e minhas noites de sono aqui costumam ser prazerosas o suficiente para que eu divida a cama com ela pelo menos uma vez por mês, quase sempre sem um planejamento prévio.
Fico de pé para dar a volta e sair da varanda apertada. Antes, me abaixo para deixar um beijo no topo da cabeça dela.
— Foi a melhor sexta-feira de muito tempo. Amanhã antes de ir pra casa eu te ajudo a arrumar tudo, viu?
— Descansa direitinho. Você merece.
— Vou descansar — garanto, afastando-me e entrando na sala escura e repleta de bagunças pontuais e tão características de Coral. — Boa noite.
— Boa noite. — Ela olha para mim por cima do ombro, com os cabelos descoloridos emoldurando o rosto bonito. Sinto meu coração acelerar um pouco mais quando ela diz: — Te amo, Nina.
Com o coração desajeitado e um sorriso sincero, digo de volta:
— Te amo.
As palavras dela, tão curtas quanto espero que sinceras, ecoam em meu peito à medida que meus passos ecoam pelo apartamento, e se amplifica quando deito no lado esquerdo da cama de casal do quarto dela.
A cortina é eficaz em impedir que qualquer iluminação externa chegue ao interior do cômodo, e a ausência de luz potencializa o peso em minhas pálpebras, que parecem travar uma árdua batalha para não se fecharem de uma vez. Apesar disso e de todo o cansaço que me privou de passar mais tempo com Coral, eu não consigo dormir.
O cansaço começa a fazer surgir o início de uma dor na lateral da cabeça, e o desconforto piora quando meu estômago ronca.
Irresponsavelmente, o plano era dormir sem comer nada além dos petiscos que dividi com Coral. No entanto, meu corpo protesta contra a decisão, e eu resolvo escutá-lo.
Jogo a coberta para o lado e, trazendo o celular comigo, sigo à cozinha esticando os braços para cima em uma tentativa meio frustrada de aliviar o desconforto nos ombros e na lombar. Paro no meio do caminho ao ver Coral ainda na varanda.
A mesa não tem latas a mais do que tinha quando me despedi de Coral, e ela está de costas para mim, sentada na mesma cadeira de antes. Parece estar aproveitando o momento sozinha, coisa que ela realmente gosta de fazer.
Coral adora ter um tempo só para si, e eu a admiro por saber valorizar a própria companhia.
Sorrio para a cena na varandinha, observando-a com ternura por longos instantes.
Vou à geladeira em seguida, ainda com uma sensação agradável no peito depois de admirá-la em silêncio. Não preparo nada além de um sanduíche, que como silenciosamente enquanto tomo uma caneca cheia de leite com Nescau, de pé no balcão que faz a divisória da cozinha e sala.
A série ruim captura a minha atenção e eu me distraio o suficiente até a tela do celular ser invadida por um banner de notificação; uma nova mensagem de Coral.
Eu paro com o último pedaço do sanduíche no meio do caminho entre o prato e a boca, franzindo as sobrancelhas para a notificação.
Coloco o pedaço final de pão com queijo na boca e alcanço o celular, segurando-o com a mão suja de farelos para abrir a mensagem da minha amiga.
Coral
Queria falar com você, Nina… (22:58)
Olho para a varanda por cima do ombro. Coral ainda está de costas para mim e não parece ter percebido que eu estou acordada e fora do quarto.
Mesmo ansiosa e curiosa para descobrir sobre o que ela quer falar – as reticências me fazem ter uma sensação ruim – eu hesito um pouco antes de responder, encarando o celular como se ele pudesse me ajudar a tomar uma decisão.
Vem na cozinha (23:00)
Volto a olhar para trás assim que envio a mensagem, observando cada instante que se passa até que ela leia a minha resposta antes de virar para trás e, pela porta de vidro, me olhar com a expressão surpresa.
Aceno para ela, observando o sorriso desajeitado que nasce em seus lábios e, na sequência, acompanhando cada um de seus movimentos apartamento adentro.
Ela não tropeça, nem parece ter muita dificuldade para manter o equilíbrio, então confirmo a minha suspeita de que ela não bebeu mais desde que deixei a varandinha.
— Tá tudo bem? — pergunto assim que ela corta a curta distância entre mim e a varanda, parando a quase um metro de distância.
Coral apenas assente, reduzindo o afastamento entre nós quando se aproxima um pouco mais para apoiar as costas na geladeira. Viro completamente para ficar de frente para ela e apoio o corpo no balcão, com uma distância curta demais entre nós.
Ela esfrega as mãos pelos braços como se tentasse aquecer o próprio corpo.
— Ficou frio lá fora — comenta, ciente de que não precisa explicar para mim o parâmetro aracajuano de frio: vinte e seis graus com rajadas ocasionais de vento.
— Foi por isso que entrei — brinco.
Coral sorri desse jeito preguiçoso, charmoso, e sei que ela sabe o poder de um sorriso assim.
Ficamos em silêncio enquanto eu continuo observando-a assim de perto e tentando desvendar a motivação por trás de sua última mensagem.
Depois de alguns segundos, consigo perguntar:
— Sua mensagem… o que você queria falar?
Coral não responde.
Tudo que ela faz é estender a mão esquerda para brincar com o cós da minha calça de moletom desbotada. Depois de brincar com ela por alguns segundos, sua mão direita mimetiza a outra, também alcançando minha calça. Neste instante, os dedos envolvem meu quadril com cuidado e, com o mesmo cuidado e ainda mais hesitação, ela me puxa. Ao mesmo tempo, se aproxima.
Seus braços deslizam devagar em torno da minha cintura e, mais uma vez, sua cabeça se deita no meu pescoço.
Tenho medo de que ela perceba quão rápido meu coração está batendo, mas, desta vez, não a afasto.
Com hesitação, eu alcanço suas costas e deslizo as pontas dos dedos em um carinho incerto sobre a camada de tecido que cobre seu corpo.
— Não sabia que você tinha acordado… — ela diz, a voz se arrastando, a respiração se chocando contra minha pele sensível a cada traço de sua existência.
— Não cheguei a dormir… não consegui…
— Por quê? — ela pergunta.
Seu rosto se afasta devagar do meu pescoço e pousa frente a frente do meu, tão perto que nossas respirações até parecem uma só.
Sinto meu rosto esquentar, meu coração bater ainda mais rápido e minha boca se tornar subitamente seca.
Meus sentidos parecem todos alterados, mas ainda consigo captar a expectativa em sua pergunta e em seu olhar. Parece mais que um questionamento raso, quase como se ela soubesse muito bem o que quer ouvir em resposta. Ou talvez, por estar tão afetada, eu esteja atribuindo sentidos demais a coisas simples.
— Minha cabeça tá meio inquieta, eu acho — respondo com o tom cheio de incerteza.
Acho que Coral acabou de aproximar o rosto.
Seu nariz está quase tocando o meu.
Engulo em seco, nervosa, tentando encontrar a melhor maneira de me desvincular de seu abraço, mas a verdade é que não quero. Não quero me afastar.
Eu quero continuar assim, permitindo que este momento vá além, até onde ela deseja levá-lo.
— Coral… — eu chamo, quase em um sussurro nervoso. — O que você queria falar comigo?
Tento desvendar de uma vez o que está acontecendo agora, mas ela fica calada. Quando finalmente diz algo, me frustra.
— Era besteira.
Ela continua se esquivando e, ao mesmo tempo em que isso me faz pensar que suas intenções são óbvias, tenho medo de estar me confundindo.
O rosto dela se aproxima mais. Seu nariz toca o meu.
— Me diz o que você queria falar… — insisto. Meu coração nunca bateu tão rápido; nossas bocas nunca estiveram tão perto.
Coral balança a cabeça para os lados em uma negativa, seu nariz se arrastando suavemente sobre o meu.
— Não era nada de mais — mente. Sei que está mentindo, ou não hesitaria tanto.
Estou pronta para retrucar; as palavras subindo pela garganta, prestes a se jogarem ao mundo. No entanto, todo o meu corpo, dos pés ao último fio de cabelo, parece congelar. Perco o impulso de fazer qualquer coisa, sentindo a boca de Coral tocar o canto da minha.
Assim como paraliso, ela faz o mesmo. Não se move, com a boca ainda tocando o mesmo lugar, a respiração lenta e pesada.
Meus olhos arregalados pouco a pouco se fecham e eu movo minha mão em suas costas até amassar o tecido se sua regata puída entre meus dedos.
Sei que isso não deveria estar acontecendo, e tento me convencer a interromper este momento, mas não consigo. Ela é minha melhor amiga. Não quero arriscar a nossa boa convivência por causa de um momento impulsivo.
— Nina… — ela chama baixo.
Com um lampejo de força gerado pela consciência do que isso pode ocasionar, eu me afasto, interrompendo o contato entre nós.
— É melhor a gente ir dormir — digo, me odiando por isso.
Observo a expressão de Coral. É indecifrável. Depois de nos olharmos em silêncio, ela apenas assente.
Parece abrir a boca para dizer algo, mas desiste, e se vira bruscamente para sair.
— Desculpa — é tudo que ela diz enquanto se afasta até se trancar no banheiro.
Eu permaneço parada no lugar, e minha única reação é apoiar a mão no peito, sentindo-o pequeno demais para abrigar um coração que bate tão forte.
Olho para o sanduíche pela metade, ciente de que não conseguirei terminar de comer agora. Então, guardo o restante na geladeira, deixo as coisas na pia para arrumar amanhã e, enquanto ouço o som da torneira do banheiro aberta, volto ao quarto dela.
Quando, muitos minutos depois, ouço os passos dela trazendo-a para o mesmo cômodo, eu covardemente finjo estar dormindo.
Coral se deita com cuidado ao meu lado, e nenhuma palavra é dita.
Deitada de costas para ela, eu finjo dormir por uma sequência desconfortável de tempo, controlando cada ruído da minha respiração e cada nuance de movimentos do meu corpo enquanto me pergunto se ela está fazendo o mesmo.
A madrugada então se segue entrecortada por cochilos frágeis e curtos intercalados a longos momentos de reflexão sobre o que aconteceu na cozinha. Quando não isso, me perdia em fantasiar cenários para quando o dia nascesse e eu ficasse frente a frente com Coral novamente, sem a proteção do meu suposto sono para evitar o confronto com a realidade.
Eu sei que ela vai lembrar. Não estava inteiramente sóbria, mas estava longe de ter bebido o suficiente para tropeçar nos próprios passos, que dirá para não lembrar do que aconteceu. Por outro lado, não sei como ela vai reagir.
Sinto a mente e o corpo cansados depois de uma noite tão maldormida. Preciso de um café bem forte, sem açúcar, e uma dose adicional de coragem.
Percebo quão covarde sou enquanto procrastino o momento de saída do quarto ao máximo, estendendo meus momentos na cama até que, enfim, saio sorrateiramente do quarto climatizado pelo ar-condicionado.
Depois de usar o sanitário e ceder ao desejo de pegar uma toalha no armário debaixo da pia e tomar um banho rápido para afugentar o cansaço, eu encaro o reflexo no espelho, condenando-o, enquanto escovo os dentes com a escova que já tenho separada no apartamento dela.
Gasto bons segundos me martirizando assim, até que ouço batidas na porta e meu corpo inteiro trava; a boca cheia de espuma e a escova parada sobre a língua.
— Nina? Vai demorar muito? — Coral pergunta do outro lado.
Eu engulo em seco antes de cuspir na pia e encher a boca de água. Então, me lembro que não respondi e cuspo mais uma vez.
— Já vou sair!
Agoniada, termino de lavar a boca e tomo a liberdade de encarar meu reflexo por mais um segundo.
Ajusto a toalha enrolada no corpo, recolho o cabelo úmido para trás das orelhas e passo as mãos pelo rosto, como se isso pudesse de alguma forma afastar o cansaço óbvio na minha feição e melhorar o meu aspecto.
Respiro fundo, de frente para a porta, e giro a chave no trinco antes de abri-la.
Coral está de pé, com um sorriso desajeitado no rosto.
Como já sabia, ela se lembra. A expressão em seu rosto é a prova viva disso.
— Bom dia — eu disparo.
Ela me olha por alguns segundos, sem tirar os olhos dos meus, até que, enfim, diz:
— Pode pegar uma roupa minha lá no armário.
— Obrigada — respondo, apressada, antes de voltar para o quarto.
Com a porta fechada, ainda enrolada na toalha úmida, eu me sento na cama bagunçada e levo a mão ao peito.
Surpresa: meu coração está acelerado de novo.
Na impossibilidade de fugir dessa situação, eu apenas torço para que a noite de ontem não deixe as coisas entre nós duas esquisitas por tempo demais.
Quando, depois de muito tempo, saio do quarto para tomar o cafézinho tão desejado, vejo Coral na cozinha. Ela já preparou o café preto e três tapiocas. Duas para mim e uma para ela, que não sente muita fome pela manhã.
— Fiz duas pra você — ela anuncia o que eu já sabia.
Sorrio, aproximando-me. Paro de frente para ela, com o balcão entre nós duas, e observo em silêncio enquanto ela serve o café em uma caneca para mim.
Olho ao redor por um instante. As roupas lavadas continuam no sofá, mas a varanda está arrumada, com os pés de manjericão, boldo e cebolinha recebendo um banho de sol. Volto a olhá-la depois, quase melancólica, enquanto reflito sobre as possibilidades de mudança na nossa dinâmica depois de ontem.
Seus olhos encontram os meus e eu percebo sua hesitação em falar. Não posso culpá-la. Pelo menos ela está tentando dizer alguma coisa, diferente de mim.
— Quer comer o chocolate que você trouxe ontem também?
Não é a melhor hora do dia para comer uma barra de chocolate, mas eu impulsivamente faço que sim.
Preciso adoçar este sábado.
Tomo um pouco do café, observando enquanto Coral pega a barra de chocolate no canto do balcão.
Quando coloco um tablete sobre a língua, deixando-o derreter devagar, finalmente, dou o primeiro sorriso do dia.
— Bom? — ela pergunta, rindo do meu sorriso bobo.
— Como sempre — respondo, pegando mais um pedacinho antes de empurrar a barra na direção dela.
Ela olha para o chocolate por longos segundos antes de voltar a olhar para mim.
Seus olhos escuros se prendem aos meus, e eu entendo, com um lampejo de desespero, que é agora que vamos conversar de verdade.
— Ainda posso ir com vocês à praia?
Fico aliviada por ela perguntar, ao mesmo tempo em que acho impensável ela acreditar que existe o risco de sua companhia não ser mais desejada.
— Claro que pode.
— Sobre ontem… — ela diz, então, dando o assunto inicial como encerrado.
Eu envolvo a caneca de café com as duas mãos, balançando a cabeça em uma concordância, mesmo sem saber com o quê exatamente estou concordando.
— Ontem foi… inesperado. — É o melhor que consigo fazer.
— Desculpa — ela pede.
Agora, balanço a cabeça para os lados.
— Tudo bem — dou de ombros como se não fosse nada de mais, ainda que, para mim, seja o oposto. — Sério.
O silêncio volta a nos envolver e nós comemos mais um pouco de chocolate, deixando as tapiocas para depois.
Meu olhar se perde no café preto da minha caneca e parte de mim acredita que a grande conversa sobre ontem se resumirá ao que acabou de acontecer; nada mais será dito.
Tomaremos café da manhã juntas, iremos à praia com minha mãe e meu irmão e, então, tudo permanecerá exatamente como sempre foi. É isso que penso.
— Eu queria te beijar — Coral diz, contrariando a minha certeza repentina.
Ela realmente disse isso ou eu estou começando a delirar pela privação de sono?
Lentamente, ergo meus olhos. Encontro Coral me olhando de volta, sem dar qualquer indício de que quebrará o contato entre nossos olhares.
Ela não parece sequer pensar em retirar as palavras que acabou de dizer.
Foi real. Coral disse que quer me beijar.
Não sei o que responder.
— Era isso que você queria falar comigo? Quando mandou aquela mensagem… — é tudo que consigo formular, forçando minha mente ao máximo para não se perder nas sílabas e acabar formulando um punhado de palavras desconexas.
Coral não responde de imediato. Tenho dificuldade em sustentar o encontro de nossos olhares, mas me forço a não desviar. Ela também não o faz.
Com movimentos comedidos e lentos, ela abandona a barra de chocolate, apoia os braços sobre o balcão e se inclina na minha direção.
Seu rosto não está tão próximo quanto ficou ontem à noite, mas está mais perto do que eu posso lidar agora sem ficar à beira de um desmaio.
— Eu queria te dizer outra coisa — enfim, responde.
Ela hesitou em me dizer que tal coisa era essa depois de algumas cervejas, então, tenho motivos para acreditar que a revelação não será feita agora, em meio à sua sobriedade. Mesmo assim, tento:
— O quê?
— Eu gosto de você.
Respiro fundo, incapaz de dizer algo.
— Eu te amo muito, Nina, e não quero que gostar de você afete a relação que a gente tem… mas depois de ontem não faz sentido esconder que eu não gosto de você só como amiga.
Eu não sei como continuar essa conversa. Minha mente está nublada, afetada demais para elaborar até as palavras mais simples.
Então, Coral continua sozinha:
— Eu pensei muito quando fiquei sozinha na varanda. Não propositalmente… eu só pensei em você… e isso acontece com frequência.
Quero dizer alguma coisa, mas não sei o quê.
— Eu quis te dizer. Me enganei pensando que, se você não tivesse ido dormir, eu confessaria. — Ela sorri, apenas curvando o canto dos lábios. Sério. Tão charmosa… — Você estava acordada e meu plano não deu certo. Mas depois que fui para o quarto… eu pensei mais. E percebi que eu deveria ter dito a verdade naquela hora.
— Por quê? — consigo questionar, enfim.
Ela sorri como se esperasse a pergunta. A mão dela toca a minha, prolongando o toque enquanto as palmas se apoiam no balcão frio.
Coral diz, sem incerteza alguma no tom de voz:
— Porque você também gosta de mim.
Mais uma vez, perco a habilidade de esboçar qualquer reação. Por longos segundos, apenas nos encaramos em silêncio, com a expectativa para as próximas palavras pairando no ar entre nós.
No entanto, quando recupero um pouco do controle sobre meus pensamentos, não digo nada. O que acontece é nada mais que uma risada baixa escapando por meus lábios. Uma reação natural e espontânea, que faz Coral se juntar a mim nesse riso frágil e fora de hora.
Cruzo os braços no balcão e me curvo até deitar a cabeça sobre eles, sentindo o riso perder força à medida que respiro fundo.
— E agora? — pergunto, ainda me escondendo.
— Você decide, Nina — ela responde.
Eu solto um grunhido, que não é necessariamente de incômodo, e volto a erguer o corpo, encarando-a.
Tento tomar a decisão mais prudente: conversar mais, alinhar as expectativas, avaliar os riscos de um provável envolvimento em nossa amizade. Sei que é isso que devemos fazer.
No entanto, os meus sentimentos por Coral às vezes resgatam uma essência quase juvenil dentro de mim; algo que eu acreditava ter ficado para trás, na minha adolescência, e que não voltaria agora nos meus vinte e poucos anos… mas voltou.
Em uma imprudência apaixonada, eu apoio as mãos no balcão e tomo impulso para fazer nossas bocas se encontrarem no meio do caminho.
Eu beijo Coral, sentindo seu sorriso contra os meus lábios enquanto suas mãos viajam ao meu rosto, segurando-o, e então a beijo mais um pouco.
Meu coração bate forte, meu sorriso cresce, nosso beijo se prolonga.
Enquanto nos beijamos e rimos uma para a outra, a Marina frustrada com a vida adulta parece dar lugar a uma Marina empolgada e juvenil mais uma vez. Todos os questionamentos cruéis sobre a minha própria vida se perdem por trás de um momento tão sincero.
Me sinto, no lugar de cansada e frustrada, viva. Me sinto ansiosa para descobrir o que virá pela frente na minha relação com Coral Ferraz.
Nessa fase da vida em que nada parece seguir os planos fantasiosos feitos ao longo da minha adolescência, Coral me faz sentir amor todos os dias, em várias pequenas coisas.
Eu amo este momento, amo agir sem pensar demais e amo sentir a boca dela na minha. Eu amo Coral Ferraz e amo tudo que ela me faz sentir.
*
Chegamos ao fim! Por favor, relevem quaisquer errinhos que tenham passado. Revisei atentamente, mas sempre deixo uma coisa ou outra passar.
A história de Marina e Coral foi escrita inicialmente para o livro de contos "O amor em Viola", mas fico feliz demais de compartilhá-la aqui com vocês, adaptando-a para o cenário do meu lugar favorito no mundo: Sergipe.
Obrigada por estar aqui comigo. Um beijo e até a próxima – ou até os comentários! ♥




Ah, Ruth, se você soubesse o quanto eu estava com saudade de uma historia nova escrita por você… ficou simplesmente perfeita. Eu amei muito e sempre me surpreendo com o quanto a sua escrita é maravilhosa. O conforto que você consegue transmitir por meio das palavras e a fluidez da sua escrita. Aaaah, é indiscritível. Voce é a minha autora favorita sem dúvidas. Hoje vou dormir com o coração extremamente quentinho depois dessa leitura 🥺❤️
foi muito impactante p mim... principalmente no começo pois estou numa fase que me encontro extremamente cansada e desanimada, mas ao ler esse conto sinto uma chama de esperança de que as coisas vão melhorar... obrigada ruth! agradeço por obras como essa que me dão animo de continuar a viver... eu amei esse romance safico, não vejo a hora de poder ler as novidades que estão por vir!
Eu amei entender a descrição dos lugares quase como se fosse eu a viver o que foi narrado. 💖
que quentinho no coração ♡ feliz por ter conhecido a história da Marina e da Coral
mds q história mais lindaa, eu NECESSITAVA d algo assim e tu entregou mt como smp, pfvr faça mais histórias sáficas